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Duzentos e cinquenta pessoas se espremeram no Tiki Bar na cidade de Costa Meda no Orange County na Califórnia, no dia 11 de agosto de 2011, pagando USD$20 por cabeça no dia anterior para assistir uma das maiores bandas de rock do mundo, após oito meses parados. A plateia – junto com as do Webster Hall Studio em Nova Iorque; 1-2-3-4 Go!Records em Oakland, Califórnia; Mezzanine em São Francisco; e Red 7 em Austin – foi presenteada, sem saber, a 20 músicas que iriam aparecer nos próximos três álbuns do Green Day.

O trio reservou favoritos como “Welcome to Paradise,” “St. Jimmy” e “Minority” para o bis, apresentando aos fãs uma música nova depois da outra – “Nuclear Family,” “Stay the Night,” “Let Yourself Go” e “Carpe Diem” – as primeiras quatro músicas no próximo lançamento da banda, !Uno!

“Fomos e tocamos 20 músicas que ninguém havia ouvido antes – seguidas. E sem planos de um disco sequer ser lançado,” diz o vocalista/compositor/guitarrista do Green Day, Billie Joe Armstrong, durante uma pausa da sessão de masterização em Nova Iorque com o produtor de longa data (e presidente da Warner Bros. Records) Rob Cavallo e Ted Jensen, que masterizou os últimos sete álbuns do grupo. “Isso foi aterrorizante. Me lembrou das vezes que tocávamos em frente de plateias que nunca haviam ouvido falar da gente antes – nada era familiar. Não havia nada sendo comercializado. Foi muito excitante e me fez querer vomitar com medo ao mesmo tempo. Estávamos nos tratando como se fossemos uma banda nova.”

As músicas que o Green Day tocou nestes cinco shows estarão nos três novos álbuns – !Uno!, !Dos! e !Tre! – que em uma estratégia nada comum, serão lançados em 15 de setembro, 13 de novembro e 15 de janeiro, respectivamente. Extensivas sessões de composição contemplaram quase 40 músicas que Armstrong, o baixista Mike Dirnt e baterista Tré Cool completaram. Uma vez organizados por temática, a banda de três homens sentiu que haviam três coleções distintas que deveriam ser lançados como álbuns individuais.

“Não vou conformar há alguma necessidade consumista,” diz Armstrong sobre a façanha nada ortodoxa. “Acredito que pessoas querem ouvir esse tipo de música, que querem ouvir discos que tem uma história. Ou talvez elas não queiram. Não faço ideia.”

O Armstrong tem certeza do seguinte: A abordagem ópera-rock do American Idiot (6.1 milhões de cópias vendidas) e 21st Century Breakdown (1 milhão de cópias vendidas) se consolidará.

“Quero escrever músicas incriveis, mas quero elas entrelaçadas de forma que haja uma ligação entre elas dentro de um álbum, o que nesse caso é basicamente dentro de três álbuns.”

Ideias sobre diferentes espaços de tempo e embalagens foram discutidas até o Green Day e os executivos da Warner Bros. Records chegarem na ideia única, e desafiante, de lançarem os tres álbuns em 16 semanas.

“Billie e a banda estavam discutindo como dar tempo suficiente para cada álbum poder respirar,” diz a copresidente da Warner/COO Livia Tortela. “Eles queriam comunicar um senso de urgência, mas não muito afastados para que todos entendessem que eles são conectados. Sentimos que o que faria sentido seria um intervalo de seis ou sete semanas.”

Amstrong sempre volta à palavra “acidente” várias e várias vezes ao discutir este projeto. Acabar compondo quase 60 músicas? Não uma plano, um acidente. A ordem das músicas? Acidental, assim como a conexão entre cada álbum. Até a ideia de tres álbuns veio de uma fantasia.

“Lançar até mesmo um álbum duplo, muito menos um álbum triplo, não parecia que iria funcionar pra gente hoje em dia,” diz Armstrong. “Queríamos lançar tudo, pois estávamos orgulhosos de tudo, e depois estava pensando em questão de volumes – um, dois e três. Estava na minha cozinha e pensei, ‘E se chamássemos os álbuns de “Uno,” “Dos,” “Tre,” só como uma piada?’ Então contei para minha esposa e ela disse ‘Na verdade isto é meio que uma ideia  brilhante.’ Então levei a ideia para os caras e perguntei o que eles achavam. Eles absorveram a ideia e disseram sim. Coloque minha foto no primeiro, Mike no segundo e Tré no terceiro.”

Ao mencionar um álbum triplo, a maioria das pessoas pensa no set de 1980 do Clash, Sandinista! Magnetic Fields lançou um em 1999 com 69 Love Songs e Joanna Newsom dois anos atrás com Have One on Me. Depois há a ideia de lançar dois álbuns no mesmo dia, um feito famoso realizado por Bruce Springsteen, Guns N’ Roses e Harry Connick Jr. e mais recentemente por alguns grupos de rap underground.

A ideia de tres álbuns foi apresentada aos executivos da Warner no começo do ano, e Tortella admite que inicialmente era “aterrorizante.” Eles eventualmente abraçaram o conceito como tres capítulos de um único livro.

“O criativo é o que importa,” diz Cavallo, que faz decisões no setor financeiro como presidente da Warner. “Esses caras escreveram 38, 39 músicas. Nós devemos servir a criatividade, e não ao contrário. O artista deve liderar.”

Lideres de várias eras do rock’n’roll não inovam seu som, intenção musical ou ambições e tem tanto sucesso comercial como o Green Day. A banda chegou à Warner/Reprise no começo dos anos 90 como uma pequena pilha de singles e LPs lançados de forma independente, e uma atitude mimada mais em linha com os Beastie Boys do que as bandas que estariam com eles no Top 10 das paradas como Counting Crows, Stone Temple Piltos, Soundgarden.

Power chords, niilismo urbano e uma marca amigável de anarquia, não só tornou o Green Day um forte grupo de pode punk – seu lançamento de 1994, Dookie, vendeu mais de 8 milhões de cópias – fez com que outras gravadoras fossem em busca de bandas parecidas em clubes pequenos.

A queda comercial da banda aconteceu com Insomniac em 1995 e Nimrod em 1997, cada um vendeu 2.1 milhões de cópias. Porém os segundo lançamento contem uma mudança de passo para a banda, o acústico “Good Riddance (Time of Your Life)”, que se tornou um dos mais tocados hits nas rádios em 1998. Enquanto chegava na 11ª posição no Billboard Hot 100, ficou 43 semanas nesta lista, tornando-o o single do Green Day a ficar mais tempo nas paradas.

Também providenciou um novo ângulo de marketing: Green Day estava crescendo, tratando de temas mais maduros e expandindo seu som. Isso se consolidou no Warning de 2000, que chegou à 4ª posição no Billboard 200 e foi o começo de Armstrong escrevendo mais seriamente sobre se rebelar contra a autoridade. Quatro anos depois, American Idiot mudaria tudo.

“Durante o American Idiot, tudo parecia tão polarizado,” diz Armstrong, “e compor músicas políticas, para mim, tem que vir do coração. Eu não fiz um esforço consciente para me afastar da política ou algo assim, mas agora temos um presidente com que os Republicanos não concordam em nada. Eles têm seus próprios interesses. Não é pelo bem maior do país.

“Não quero martelar num assunto em que o país está em pé de guerra. Deixe isso para as cabeças falantes resolverem. Além disso, eles já estão me dando nos nervos mesmo.”

American Idiot, que estreou em número 1 no Billboard 200, marcou o retorno do Green Day à arenas após alguns anos realizando turnês em teatros grandes. (Em 2005 lucrou USD$37.7 milhões em 67 shows, vendendo quase 1 milhão de ingressos.) Um álbum conceitual, era o projeto adulto que levaria o Green Day a um novo nível (vencendo o Grammy de Melhor Álbum de Rock, assim como Melhor Disco do Ano com “Boulevard of Broken Dreams”) antes de se tornar um musical em casa, Berkley Califórnia, e eventualmente Broadway. Reforçados pela ambição do álbum, a banda seguiu em 2009 com o 21st Century Breakdown, que chegou ao 1º lugar e também venceu o Grammy de Melhor Álbum de Rock.

No outono de 2010, Arsmtrong atuou uma semana na Broadway em “American Idiot”, o que devolveu ao show o status de esgotado antes da banda retornar à turnê mundial de 21st Century Breakdown. Ele retornou em Janeiro e Fevereiro para dois meses de shows. Durante este tempo, ele começou a escrever as músicas que aparecem em !Uno!, !Dos! e !Tre!

Em setembro de 2010 quando em Nova Iorque, Armstrong disse, “Estava em um mundo onde ninguém estava prestando atenção em mim, então não havia pressão, e eu escrevi sete ou oito músicas. Fomos para a América do Sul e eu mostrei as músicas para eles. Eles foram ambivalentes com isso então eu só continuei escrevendo.”

No inícios da turnê na Europa, Armstrong alugava estúdios nos dias de folga da banda “ao invés de ficarmos bebendo.” Após Helsinki, Berlim e Estocolmo renderem músicas que ele terminaria, Armstrong sentiu que poderia continuar com um sistema similar enquanto se apresentava em “American Idiot” na Broadway.

“Enquanto estava no show e morando em Nova Iorque, estava cercado de pessoas incrivelmente talentosas, algo que não havia (experimentado) há anos fora dos membros da minha banda,” ele diz. “Inspiração vinha disso todos os dias. Eu e alguns dos membros do elenco nos reuníamos, ouvíamos discos e conversávamos sobre música e vendo todas estas pessoas cantando com essas vozes incríveis. Estava submerso em criatividade e não era necessariamente minha  – estava me alimentando de todos os outros e sua determinação. Montei um pequeno estúdio no meu apartamento e escrevi músicas de 30 segundos, um minuto, gravava elas e corria para o teatro. Fazia isso quase todo dia.”

Eventualmente ele tinha mais de 55 músicas que ele queria apresentar para a banda no inícios dos ensaios. “Estávamos num momento, numa vibe, compondo músicas e as ensaiando, ficando longe do estúdio de gravação,” ele diz. “Foi meio que como fazer as coisas como fazíamos ao começar a banda. Foi uma experiência boa.”

O trabalho que a banda investiu foi óbvio, diz Cavallo. “A banda estava muito bem ensaiada. Eles queimaram (as músicas) e ensaiaram quase como que em um show.”

Gravar as canções começou a formar a fluidez da música. Mesmo que não centrado em personagens, como nos dois últimos álbuns do Green Day, Armstrong viu temas se desenvolvendo: “O primeiro álbum é o começo da festa, o segundo é a festa acontecendo e a profundidade de inferno na festa, e o terceiro é tentando unir as peças, auto reflexão e ressaca.

“O que eu realmente queria fazer era compor músicas realmente power-pop que tinham a energia do Green Day antigo, então o som original do Green Day se tornou o !Uno! Estava também compondo coisas de garage-rock que parece com (a banda paralela do Green Day) o Foxboro Hot Tubs. O terceiro álbum foi um pouco mais reflexivo e interno. Escrever álbuns assim vem com a vida e experiência – vindo do quadril da crise de meia idade.”

Cavallo diz que as músicas foram gravadas 90% em ordem, o que eles disse que resulta na banda apresentando músicas de formas diferentes ao saber onde elas estarão em um álbum específico. Iluminado e poderoso com !Uno! é, é altamente provável que quando !Dos! for lançado, muito será feito de sua solene música final “Amy”.

Armstrong diz que o tributo à Amy Winehouse levou menos de 20 minutos para ele compor. “Eu senti que havia essa ligação entre R&B do passado e R&B do presente. O que ela fez, seu conhecimento de músicas antigas e Mowtown, é algo na cadeia da música que se foi para sempre. Ela nunca obteve a ajuda que ela precisava. Eu sei como é seguir um caminho muito escuro e tenho pessoas boas em minha volta para me ajudarem a sobreviver. Acho que é por isso que consegui me identificar com isso.”

!Tré! também tem uma música baseada na vida de uma pessoa, que Armstrong pode usar como inspiração e reflexão: “Little Boy Named Train.” O filho de Armstrong era colega de escola em Berkley com um menino que estava sendo criado por duas mulheres.

“Um dos pais nasceu hermafrodita e (seus pais) cortaram seu pênis. Sua vida toda, essa pessoa queria ser reconhecida como um homem. Os pais queriam que a criança não fosse identificada como um menino ou uma menina, e a criança não tinha um nome – uma semana era Tigger, na outra era Train. Muitos anos atrás eu anotei isso e eu sempre quis escrever uma músicas chamada ‘Little Boy Named Train.” Isso aconteceu com outra pessoa, mas havia parte de mim em que estava pensando quando escrevi. Tem uma frase: “Estou sempre perdido, nunca irei mudar. Me de direções  estou perdido novamente.’ Meio que autobiográfico.”

Cavallo e Tortella se sentiram particularmente inspirados pelo triplo lançamento do Green Day. O timing dos releases é uma forte oportunidade promocional (veja a história abaixo) e ambos executivos enxergam suficiente diferenças de estilo e letras entre os três álbuns para gerar conversas entre fãs de rock.

“Billie pensa muito grande,” diz Cavallo. “Ele é um compositor excitante e um artista excitante. Meu desejo é que tivéssemos mais como ele no mundo. Teríamos uma indústria mais excitante.”

Planos de marketing para !Uno!, !Dos! e !Tré!

O Green Day apresentou um desafio de marketing para a Warner Bros. Records com que nenhuma outra grande gravadora já se deparou: Como você consegue fazer com que os fãs abracem três álbuns lançados com seis a sete semanas de diferença?

Copresidente/COO da Warner, Livia Tortella diz que de cada um dos três álbuns serão lançados três ou quatro singles nas semanas que antecedem seus respetivos lançamentos. A maioria será feita online através de vídeos, mas o timing é chave em significantes oportunidades na TV. “Estamos apresentando seleções de músicas para que todos saibam que há três álbuns. Uma vez que a campanha para os consumidores começar e a música for lançada, fará muito sentido,” diz Tortella. “Daremos a tudo seu próprio tempo ao sol.”

Tortella avisou que nem tudo foi confirmado, mas que já há eventos com objetivos específicos para a promoção de cada álbum.

!UNO!

Data de lançamento: 25 de setembro

Concorrentes de lançamento: No Doubt – Push and Shove

Estratégias: Estações de rádio de rock da Clear Channel irão lidar com o lançamento mundial do single “Oh Love” dia 16 de julho. É uma das três músicas que serão lançadas através de vídeo antes do álbum, o segundo é esperado para o dia 13 de agosto. Após datas na Europa, a banda irá tocar o iHeart Radio Music Festival em Las Vegas no dia 22 de setembro e no MTV Music Video Awards no dia 6 de setembro. É o único álbum ser lançado dentro do período para ser elegível a um Grammy já no ano que vem.

Músicas que merecem destaque: “Let Yourself Go,” uma jóia de energia alta; “Kill the DJ,” que revisita o funk da forma como o Clash fez no começo dos anos 80; e “Troublemaker,” onde Billie Joe Armstrong usa ser marcante sarcasmo.

!DOS!

Data de lançamento: 13 de novembro

Concorrentes de lançamento: Big Boi – Vicious Lies and Dangerous

Estratégias: O primeiro vídeo para !Dos! provavelmente será lançado em meados de setembro. Uma turnê norte americana acontecerá entre final de novembro e janeiro, e ingressos para os shows serão vendidos junto com os álbuns. O lançamento será junto com as vendas de Thanksgiving (Dia de Ação de Graças) e possivelmente uma apresentação no American Music Awards.

Músicas que merecem destaque: “Amy”, um tributo a La John Lennon à Amy Winehouse, e duas faixas que se aventuram em territórios não tradicionalmente associados ao Green Day: “Stray Heart,” possivelmente a música mais pop na sua influência com melodias e harmonias do soul e Carolina beach music; e “Nightlife”, uma música de festa com influências de R&B gangster.

!TRE!

Data de lançamento: 15 de janeiro

Concorrentes de lançamento: Nenhum anunciado

Estratégias: Um documentário sobre os dois últimos anos do Green Day é esperado para ser lançado no Sundance Film Festival. Um segundo documentário sendo trabalhado cobre os dias pré-Dookie da banda. DVDs dos filmes podem ser adicionados em pacotes para os fãs que comprarem os três álbuns em pré-vendas;

Músicas que merecem destaque: “Brutal Love,” que casa glam-rock, doo-wop e música soul, inclui instrumentos de corda em sua conclusão; e “99 Revolutions,” um lembrete à potencia dos primeiros sons do Green Day.

Tradução: Marie Bastos