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Green Day

Visões de Utopia

O Green Day revela como a política se tornou sua mais poderosa arma.

De alguma maneira, as pessoas acharam que era algo novo quando, em 2004, o Green Day surgiu com fortes opiniões políticas e, aparentemente, finalmente terem crescido. Enquanto o American Idiot passava das 13 milhões de cópias vendidas, as pessoas se perguntavam se esta ainda era a mesma banda que nomeou seu primeiro álbum de sucesso Dookie.

Eram eles os mesmos desocupados que escreviam músicas sobre estarem entediados demais para masturbar e pareciam estar mais interessados em passarem o dia fumando maconha – um evento que já foi tão regular para eles, que é ao que se refere o nome da banda.

Mas o Green Day sempre teve um teor político, só estava escondido por um tempo. Criados no lixo industrial de Rodeo no Norte da Califórnia; o cantor Billie Joe esteve sempre desesperado para fugir para algum lugar maior, melhor e mais ousado. A morte de seu pai quando ele tinha apenas 10 anos e a luta de sua mãe para criar uma família de 6 filhos, com o salário de uma garçonete, o levou a procurar outro lugar.

Ao lado de outro garoto de Rodeo, Michael Pritchard (que mais tarde se tornaria Dirnt devido ao barulho que as cordas de seu baixo desligado faziam), Armstrong foi a Berkley e então ao lendário, e altamente político, clube punk 924 Gilman Street.

Lá, a dupla aprendeu sobre o punk, socialismo e política radical de um local que, até hoje, deixa claro que: “Nos esforçamos para providenciar um ambiente sem violência, álcool e drogas. Não iremos contratar ou apoiar bandas ou apresentações racistas, machistas, ou homofóbicas.”

Com o Dirnt, o Armstrong formou uma banda baseada nos ideais do Gilman Street e, após conhecer o baterista Tré Cool, se tornaram o Green Day. Eles tocavam em lugares invadidos e em comícios, participavam das manifestações de 1991 em Berkley. Depois, eles assinaram com uma grande gravadora e o Gilman Street deu suas costas ao Green Day, tachando-os de vendidos.

Porém, ao longo tempo, bem lá no fundo, estes ideais permaneceram. Talvez não fosse uma surpresa descobrir que o álbum mais vendido do Green Day foi, afinal, uma granada política. Talvez não seja uma surpresa que seu mais novo disco, 21st Century Breakdown, continua com o mesmo tema. Talvez a surpresa seja que eles não estavam falando sobre este tipo de coisa o tempo todo.

O 21st Century Breakdown detalha muito pânico, caos e revolução. Foi essa a intenção quando você começou a escrever-lo?

Billie Joe Armstrong: “Isso é só o que ele acabou se tornando. Depois do último disco, começamos a escrever. A primeira música que escrevemos foi Mass Hysteria, sem saber que ela entraria em Modern World e se tornaria American Eulogy. Talvez isto marcou o tom do CD, havia uma relação entre cada uma das músicas. Elas eram fotografias dos últimos cinco anos; elas eram as coisas que você assistia na televisão ou na inernet – o caos e o desespero. Foi construído em cima daquilo que absorvíamos do que víamos.”

As pessoas os vêem como uma banda política agora. Você acha que precisam superar estas expectativas?

Billie Joe: “Eu acho que é ai onde nossas cabeças estão, não foi particularmente um esforço consciente. A cada disco você sempre se aprofunda cada vez mais nas coisas que mais lhes importam. Depois do Nimrod de 1997, mesmo tendo sido o auge do pop-punk, começamos a nos interessar mais pelas raízes, sejam elas na política ou nos tópicos. Com a idade, começamos a absorver mais informação e nos tornarmos escritores mais ousados. Cada disco tem sido um passo a frente, um passo mais a fundo nas áreas políticas.”

Vocês eram vistos como bem menos sérios nos anos 90, apesar da educação que receberam no Gilman Street. Vocês estão surpresos que as pessoas não notaram os ocasionais elementos políticos nas suas músicas?

Mike Dirnt: “Sempre houve um pouco. Estava contando para uma pessoa outro dia que, no primeiro LP, 39/Smooth de 1990, há uma música chamada Road to Acceptance, que é sobre racismo. Era algo muito importante na cena punk – combater o racismo e o fascismo. Era onde nossas cabeças estavam na época, então escrevemos sobre isso.”

Vocês achavam que seriam a banda que ficaria apontando os problemas da sociedade?

Billie Joe: “Nós nunca quisemos fazer exclusivamente isto, eu queria deixar as coisas acontecerem naturalmente. Queríamos nos divertir e escrever sobre as coisas com as quais nos importamos – que fossem relacionamentos, amor, amizade, envelhecer e engordar, ficar igual aos seus pais, se sentir sozinho e masturbar, estar bêbado, drogas, um novo presidente – qualquer coisa. Deixamos de ser preguiçosos – que era o que representamos e o porque de tanta gente ter se identificado com o Dookie – e começamos a evoluir naturalmente. Não estávamos tentando exagerar, não estávamos mudando de um gênero para outro.”

No último álbum o forte conteúdo político das letras trouxe algum problema com o público, principalmente no sul dos EUA onde apoiavam o Bush?

Mike Dirnt: “Ninguém vai pagar $20 dólares para ir gritar com uma banda punk em um local onde a maioria das pessoas pensam como nós. Talvez não vieram tanta gente nos shows que fizemos no sul, mas acredito que não levou muito tempo para as pessoas descobrirem que não estávamos tão errados.”

Billie Joe: “Queríamos convencer mais pessoas a votarem. Não há como não perceber o fato de que a maioria das crianças que escutavam o que tínhamos a dizer sobre política, já tem idade para votar hoje. Talvez aquele disco teve algo a ver com mudar as coisas para os jovens. Se você realmente gosta de música naquela idade, significa mais do que ficar só batendo o pé no ritmo. É por isso que grandes fãs de música são mais voltados à política do que a maioria das pessoas.”

A pressão de ter que superar um disco que teve tanto sucesso quanto o American Idiot e ter certeza de que todos captem sua mensagem da forma correta, te deixa sem dormir a noite?

Mike: “Como uma banda, todos nós sentimos o peso. É muito difícil ser paciente e apoiar um ao outro. Caralho, nós queremos as coisas e a queremos ontem, mas não é assim que funciona. Há vezes no meio da gravação em que você não sabe se o seu trabalho duro vai valer a pena, você não sabe o que vai acontecer. Você pode ter passado três anos e meio trabalhando em um álbum que já vai nascer morto. Você tem que confiar no processo.”

Tré Cool: “Não sentimos com se tivéssemos que reinventar o gênero, só queremos ser melhores – criar momentos que soem melhor, levar tudo ao próximo nível. A intensidade da música é terapêutica para nós, pessoalmente. Há uma divisão onde às vezes a letra é mais sombria que a música, então a música te deixa bem e a letra te assusta. É como um remédio.”

Billie Joe: “Você está certo. Por exemplo, eu sei que as pessoas vão amar uma música como Static Age. Quando você canta algo assim, que contem uma emoção tão negativa, para uma sala cheia de pessoas que cantam junto com você, então isto a torna em um hino. Todos estarão cantando com muita paixão sobre o quão depressivos eles estão. Isso se torna animador, torna o negativo positivo. Isso, espero eu, é o que estamos fazendo aqui.”

Tradução: Marie Bastos